Autor Tópico: Entrevista 3 - Thiago "Estus" Marés  (Lida 2642 vezes)

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Offline Smaug

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Entrevista 3 - Thiago "Estus" Marés
« em: Abril 04, 2006, 07:41:57 »
Thiago Marés Tizzot é editor da Arte & Letra e autor do livro O Segredo da Guerra (que está concorrendo ao prêmio Jabuti de melhor livro infanto-juvenil), lançado em junho de 2005. É um dos responsáveis pelo lançamento, em 2004, do Curso de Quenya - A Mais Bela Língua dos Elfos e, em fevereiro de 2006, As Cartas de J.R.R. Tolkien. É conhecido como Ispaine ou Estus.

1- Queremos saber o que faz e quem é Thiago Marés. O que gosta, seus hobbies, trabalho, e essas coisas.

Thiago: Atualmente sou editor e escritor. Meu primeiro livro, O Segredo da Guerra, saiu no mês de junho [de 2005] e editei As Cartas de JRR Tolkien que saiu em fevereiro. Também escrevo um blog sobre Breasal (http://escribasdebreasal.zip.net) o mundo imaginário que criei.

2- Como o Mundo de Tolkien entrou na sua vida? Qual a primeira obra, o primeiro assunto, que lhe foi apresentado?

Thiago: O primeiro livro que li do Tolkien foi O Hobbit. Estava indo para os Estados Unidos e parei para comprar um livro para ler no avião. Chamou-me a atenção um livro de bolso que tinha um dragão dormindo sobre uma enorme montanha de ouro. Era a conhecida ilustração do John Howe. Foi isso que me fez comprar o livro em primeiro lugar. Sem saber quem era o autor ou do que se tratava, comprei o livro na mesma hora. Devorei o livro, achei excelente. Meu irmão também foi seduzido pelas ilustrações e comprou o Silmarillion da mesma coleção, mas ele acabou nunca lendo nada de Tolkien. Logo depois de terminar O Hobbit queria ler mais coisas daquele escritor e comecei o Silma, infelizmente meu conhecimento de inglês na época não deixou que eu fosse além das primeiras páginas. Fiquei um bom tempo sem ler Tolkien até descobrir que existiam livros dele aqui no Brasil.

3- Na sua primeira leitura de O Hobbit, quais os aspectos que lhe chamaram mais a atenção, houve algum ponto de desgosto?

Thiago: Acredito que foi a história que me chamou a atenção. Acho O Hobbit uma excelente história. Mas talvez tenha sido a força criativa de Tolkien, que apesar de estar ainda pequena, já podia ser muito bem notada. Não me lembro de nenhum ponto de desgosto quando estava lendo pela primeira vez. Mas hoje posso dizer que o episódio da luta contra os wargs, onde Gandalf ataca as feras com bolas de fogo, não me convence e parece fora de contexto. A magia mais sutil do Senhor dos Anéis me agrada muito mais.

4- Quando você veio a realmente ver que Tolkien era o nosso Tolkien,
criador de mundos fantásticos?

Thiago: Percebi plenamente o que Tolkien tinha criado apenas quando li Contos Inacabados. A primeira vez que li o Silma, pareceu-me muito confuso, não consegui ligar os nomes aos personagens e a história ficou quase que sem sentido para mim. Mas quando li o Contos, percebi que cada diálogo, ação, personagem e palavra tinham sido cuidadosamente pensados e trabalhados para estar em harmonia com todo o contexto. Claro que depois reli o Silma e é impossível não ficar impressionado. É um trabalho que dificilmente será visto algo parecido.

5 – Você disse que gostou da história de O Hobbit. Agora, de uma forma mais aprofundada, quais os traços principais dentro da história que você mais gostou: o sentimento dos personagens, a coragem deles, o humor...?

Thiago: Acho a história do Hobbit muito bem construída, apesar de muitos acharem o livro infantil, ele possui uma história cativante que prende o leitor. É impressionante como o Tolkien consegue inserir o Hobbit dentro do contexto da Terra-Média precisando alterar muito pouco do original. No Hobbit existe uma trama secundária, a Terra-Média se movimenta por onde a narrativa não está passando. A saída de Gandalf, a Batalha dos Cinco Exércitos, os acontecimentos de Dol Guldur e principalmente como tudo foi construído por Gandalf, é genial. Além de eu ter um gosto pessoal por grupos de aventureiros o que neste livro acontece por várias vezes. Confesso que depois de conhecer todo o universo de Tolkien o livro ficou muito mais interessante. Acho que o fato de ser o primeiro que li pesa bastante também para ser meu preferido.

6 – Tanto que você escreveu “O Segredo da Guerra”, uma aventura narrada por grupos de aventureiros. Quais inspirações mais explícitas você diria que surgiram das leituras das obras de Tolkien para a composição deste?

Thiago:  A maior inspiração que tirei da leitura de Tolkien foi a Terra-Média. A criação de um mundo que não existe apenas para contar a história, mas que se movimenta, tem uma independência da história narrada no livro. Acho isso fantástico. Foi o que tentei fazer com O Segredo da Guerra transformar a história em uma conseqüência e não a causa para o mundo ser criado. Mas se tratando de um livro de Fantasia, tem Tolkien por todos os lados.

7 - E agora sobre a parte do RPG. Ao lermos o seu livro, podemos perceber como ele se constrói como um jogo de RPG, por ser narrado por diferentes narradores. Desta convivência com o RPG, quais foram as inspirações para a composição do livro? Nos conte também quais campanhas e aventuras que você mais gosta de jogar, quais tipos de personagens e/ou poderes você mais gosta?

Thiago:  O RPG foi determinante para o livro porque Breasal foi inspirado no mundo que eu jogava. Claro que acabei fazendo muitas alterações, mas quem conheceu sabe que ele está presente. Os Basiliscos eram jogadores antes de se tornarem personagens do livro. Nas primeiras versões o texto era muito mais voltado para o RPG, tinha nomes de magia e tudo, mas com o tempo percebi que seria mais interessante ter um livro que todo mundo pudesse ler e compreender por inteiro o que estava escrito ali. Por isso o RPG saiu muito de cena. Mas acho que a maior inspiração do RPG foi o ato de criar tramas, era uma das coisas que mais gostava quando jogava apesar de sempre ser jogador, nunca mestre. Mas sempre dava um jeito de colaborar com a criação do ambiente em que as aventuras iriam se passar. Sempre joguei D&D, era meu preferido, mas joguei GURPS, Tagmar, Vampire, de tudo um pouco. Minhas aventuras preferidas é claro eram as de capa espada, tesouros e monstros, labirintos e essas coisas. A grande maioria dos jogos eram aventuras dos próprios Basiliscos. Sempre fui mago, ladrão ou ranger, dificilmente jogava com outra classe, mas sempre acabava lutando como um guerreiro. Não tinha paciência de ficar esperando atrás, meus companheiros sempre disseram que eu era muito impulsivo.

8 - Agora vamos mudar um pouco, vamos falar dos filmes. Quando você soube que 'A Sociedade do Anel', do Tolkien, iria sair em filme, qual foi a sua reação? Você imaginava/sabia que um dia surgiria um filme justamente deste autor, inspirador e influenciador? Já tinha conhecimento semelhante?

Thiago: Minha primeira reação aos filmes foi saber se a notícia realmente era verdade. Acho que por otimismo meu, sempre esperei que fosse ficar muito bom, por isso fiquei feliz quando vi que iriam adaptar o livro para as telas. A única coisa que lembro das primeiras notícias era de como me divertia lendo os rumores de atores que iriam interpretar os personagens e se estes atores correspondiam com minha imagem de cada personagem. Lembro que a primeira lista de atores era recheada de gente famosa. E claro, expectativa para ver as primeiras cenas. Sinceramente achava que nunca fossem fazer um filme, a história é muito complicada, achava impossível fazerem uma Terra-Média convincente, enfim, nunca esperava que alguém fosse arriscar.

9 - O que você achou das modificações que Peter Jackson fez na história original ao adaptá-la para um roteiro de cinema? Foram necessárias ou não?

Thiago: Muitas entendo, outras não lembro agora para poder dizer alguma coisa. Mas tem uma que me incomoda. A atuação de Faramir na história achei terrível. A deformação do personagem foi grande demais, tornando-se um filho mal amado que só pensa em agradar o papai. Acabou deixando de lado toda a sabedoria que vejo na personagem no livro. Ficou ruim mesmo. Entretanto sempre trato livro e roteiro como obras separadas e não condeno o PJ por deturpar o livro, afinal os textos do Tolkien estão lá intactos para quem se interessa e vai atrás.

10 - Como você avalia a atuação dos atores? Eles incorporaram bem os personagens?

Thiago: Os atores estão bem, mas o destaque para mim é o Ian Mckellen, realmente ele incorporou Gandalf, vendo ele em outros filmes, não parece que é a mesma pessoa. A surpresa foi o Bernard Hill, muito bem também.

11 - Qual(ais) cena(s) dos livros que mais te marcaram ao serem passadas aos filmes. Elas foram bem adaptadas, na sua opinião? E o que você sentiu mais falta nos filmes, no geral?

Thiago:  Por incrível que pareça, a cena que mais marcou foi a chegada de Gandalf na casa do Bilbo, quando ele abre a porta e os dois se abraçam. Quando vi pensei "Meu Deus eles conseguiram." Levando-se em consideração a dificuldade que é, acho que o filme se tornou uma boa adaptação. Mas não me lembro de nenhuma cena que eles tenham adaptado a perfeição. Para mim a grande falta foi o Expurgo, mas sobre os três filmes posso dizer que faltou a coerência que Tolkien tanto defendia. Personagens que mudam de atitude bruscamente, eventos que não condizem com a História da Terra-Média, tudo bem que são detalhes, mas é um dos diferencias do Tolkien.

12 - Você poderia citar os personagens que mudam de atitude bruscamente? Você pensa que este pode ser um toque Hollywoodiano - exagerado ou leve?

Thiago: O primeiro é Faramir, ficou extremamente forçado a passagem de Ithilien até Osgiliath, a mudança brusca em suas decisões. Outra é a de Barbárvore, estranha mesmo. Mas a principal e mais grave é a de Elrond. De repente ele decide ajudar os Homens e envia um esquadrão para a batalha? Momentos antes ele dizia que o tempo dos Elfos já passou e que não existia mais nada para eles na Terra-Média. No caso do Elrond definitivamente é um toque Hollywoodiano, ver os Elfos e Homens lutando juntos. E neste caso exagerado. Nos outros acho que foi mais problema de roteiro do que Holywood.

13 - Dos três filmes qual te emocionou mais? Porque?

Thiago: O que mais me emocionou foi o último. Talvez porque seja o livro que mais gostei de ler pela primeira vez. E também existia aquele sentimento de que depois daquele acabou.

14 - Voltando para o seu livro agora. De onde veio o nome do grupo de heróis "Basiliscos"? Tem alguma relação com o monstro-serpente de uma mitologia antiga?

Thiago: O nome surgiu dos jogos de RPG, já nessas aventuras o grupo levava o nome dos Basiliscos e a relação com o monstro é a mais estreita possível. O grupo de heróis composto por Varr, Ligen, Kólon, Estus, Krule e Wahori é conhecido como os Basiliscos porque seus inimigos ficam paralisados de medo em face a um confronto. Essa foi a explicação que inventei para meus personagens, mas a verdadeira ninguém sabe. Os Basiliscos verdadeiros, inclusive eu, esqueceram o porquê.
   
15 - O nome do continente em que suas histórias ocorrem é "Breasal", que na mitologia celta seria uma grande ilha, um "paraíso" natural. O nome do nosso país, segundo alguns estudos, poderia derivar desse significado. Breasal então seria alguma homenagem ao Brasil?

Thiago: Sim, com certeza uma homenagem. Mas não quer dizer que a minha Breasal seja de alguma forma o Brasil em outra época. Ela é totalmente fictícia e não tem nenhuma relação com nosso mundo.

16 - Ainda nessa parte "lingüística" da obra. Como você formou os nomes de seus personagens, lugares, objetos e outros? Quais são as influências ou inspirações?

Thiago: Procurei inventar os nomes baseados em uma certa sonoridade para cada raça, mas isso ainda está muito mal desenvolvido. Não foi feito de uma maneira satisfatória. Muitas vezes recorria a línguas antigas para compor os nomes ou línguas inventadas. Tentava fugir de nomes que existem realmente. Também usei algumas referências ao longo do livro a histórias épicas, pinçando nomes de seus universos.

17- Você tem alguma mitologia preferida em específico?

Thiago: Não. Qualquer mitologia para mim é interessante. Ultimamente tenho tentado prestar um pouco mais de atenção nas mitologias aqui da América do Sul. A gente acaba sempre olhando para os gregos e nórdicos e esquece que aqui tem muita coisa interessante.

18 - Aprecia outras obras fictícias além das de Tolkien - qual seria sua predileta?

Thiago: Difícil apontar uma predileta. Um autor que tem prendido minha atenção ultimamente é o Bernard Cornwell, das Crônicas de Arthur, gosto muito de ficção histórica que ele faz.

19- Em seu livro, todos os Paladinos veneram um deus, a quem pedem proteção e dedicam suas batalhas e vitórias. Isso demonstra uma certa influência religiosa na sua obra, seja da parte de sua própria crença ou dos antigos guerreiros templários, hospitalários e afins?

Thiago: Talvez seja influência das mitologias. Não sei se seria uma influência religiosa propriamente dita, mas de uma crença que todos temos. A necessidade de acreditar em algum coisa para nos dar aquela força extra para irmos lá e realizá-la. E não precisa ser necessariamente um ser divino. Quando escrevi nunca pensei sobre a religião ou a criação de deuses, os deuses sempre me pareceu uma coisa natural em um mundo onde é necessário realizar grandes feitos. E onde existem deuses sempre irão existir aqueles que decidem de alguma forma se apoderar de seus milagres e palavras, seja para um uso bom ou mal. A religião é inevitável.

20- Não se espante, mas esta é uma pergunta que fazemos para nossos entrevistados: qual é o seu pastel preferido?

Thiago: O bom e velho tradicional pastel de carne.

21- Você gostaria de deixar uma mensagem para todos os fãs que leram esta entrevista?

Thiago: Espero que a entrevista desperte o interesse pelo Segredo da Guerra. É muito difícil começar a escrever e publicar Fantasia no Brasil. Por isso se alguém se interessou pelo livro, não deixe de ler o primeiro capítulo em http://www.arteeletra.com.br/admin/pdf/166capitulo1.pdf. Obrigado a SdP pelo espaço.
« Última modificação: Abril 05, 2006, 02:57:21 por Smaug »
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Offline Bagrong

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Re: Entrevista 3 - Thiago "Estus" Marés
« Responder #1 em: Abril 05, 2006, 04:58:56 »
Muito foda a entrevista! :clap:


Citação de: Thiago
O primeiro livro que li do Tolkien foi O Hobbit. Estava indo para os Estados Unidos e parei para comprar um livro para ler no avião. Chamou-me a atenção um livro de bolso que tinha um dragão dormindo sobre uma enorme montanha de ouro. Era a conhecida ilustração do John Howe. Foi isso que me fez comprar o livro em primeiro lugar.

E ainda dizem que não é bom comprar um livro pela capa :lol:


Citação de: Thiago
Espero que a entrevista desperte o interesse pelo Segredo da Guerra. É muito difícil começar a escrever e publicar Fantasia no Brasil. Por isso se alguém se interessou pelo livro, não deixe de ler o primeiro capítulo em http://www.arteeletra.com.br/admin/pdf/166capitulo1.pdf. Obrigado a SdP pelo espaço.

Se alguém pensou em comprar o Segredo da Guerra, aqui vai a dica: pare de pensar e compre. Eu gostei muito desse livro, merece estar dentre os meus bons livros de fantasia, que ocupam um lugar especial na prateleira.  :mrgreen:

Offline Smaug

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Re: Entrevista 3 - Thiago "Estus" Marés
« Responder #2 em: Abril 07, 2006, 06:49:46 »
Eu adorei a entrevista. É muito bacana, principalmente para quem já leu o livro do Segredo da Guerra, conhecer mais sobre as inspirações para a composição desta história de uma maneira geral. Sou fã do Ligen (e do Estus, hehe) :P
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